12/07/19

Plano Nacional das Artes Simplex

"Público", 2.07.19

Tenho visto muitos defensores da Educação Artística festejar o Plano Nacional das Artes apresentado recentemente pelos ministérios da Educação e da Cultura. Perdoem-me o cepticismo, mas antes de abrir o champanhe, devíamos (re)ler este excerto do Decreto-Lei n.º 344/90, que estipula as Bases Gerais da Educação Artística: «a sua resolução passa pela reestruturação global e completa de todo o sistema, iniciando-se por aí a construção gradual de um novo sistema articulado, que contemplará todas as modalidades consideradas neste domínio, a saber: música, dança, teatro, cinema, audiovisual e artes plásticas».

Quase trinta anos depois deste DL está praticamente tudo por fazer. No 1º ciclo a Educação Artística tem 4 áreas obrigatórias (Artes Visuais, Expressão Dramática/Teatro, Dança e Música), no 2º ciclo tem apenas duas (Educação Visual e Educação Musical) e, no 3º ciclo, apenas uma (Educação Visual).

No 2º ciclo e no 3º as escolas podem criar outras disciplinas artísticas, mas “privilegiando os recursos humanos disponíveis”. Tal limitação, em áreas como Teatro ou Dança, que não têm grupo de recrutamento nem professores no quadro, leva uma boa parte das escolas a não abrir estas disciplinas e outras a atribuir os horários a “curiosos” sem formação, apesar de, só em Teatro, existirem 21 licenciaturas.

No Ensino Secundário foi recentemente criada a opção de Teatro, mas limitada ao 12º ano (a extinta Oficina de Expressão Dramática existia nos 3 anos), sem que saibamos em que moldes funcionará. Também há disciplinas ligadas a esta área em cursos profissionais e em cursos do Ensino Artístico Especializado.

Curiosa e ironicamente, em matéria de Teatro na Escola, o Ministério da Educação pinta um cenário pior do que a realidade. Leia-se o Ofício n.º 595/2019, assinado pela chefe de gabinete do Ministro da Educação, que diz ter havido, em 2018/19, apenas 8 pedidos de horários para “a disciplina” de Teatro. Tal afirmação, mais absurda que o teatro de Ionesco, apenas confirma o desconhecimento da realidade por parte de quem vive em gabinetes.

Não há assim tão poucos professores de Teatro nas escolas. Devia haver mais, mas não há assim tão poucos. A tutela é que não lhes reconhece a existência nem a formação, não sabe que disciplinas leccionam nem que trabalhos desenvolvem, não os integra na carreira docente e nada fez para combater o recurso abusivo à contratação anual sucessiva.

Se quisesse mesmo um Plano Nacional das Artes, o Ministério da Educação teria convidado os professores das áreas artísticas a apresentar sugestões. Mas não o fez. O único contacto feito à Associação de Professores de Teatro-Educação foi um convite para assistir à apresentação do PNA, através de um e-mail enviado na véspera, com a data errada (talvez faça falta um PNEE – Plano Nacional para Enviar E-mails). Mas ainda bem que não estivemos presentes no evento, pois falta-nos paciência para apresentações de “novidades” que já existem.

Sim, já existem visitas de estudo a museus e teatros. Sim, há muito que as escolas acolhem artistas. Até há, imagine-se, artistas que dão aulas de artes. E também existe formação superior nas várias artes, que o Ministério da Educação deveria respeitar e que nenhuma Academia PNA poderá substituir.

Querem um Plano Nacional das Artes? Fomentem a existência de diferentes expressões artísticas nas escolas, dêem-lhes a mesma importância que têm as outras áreas disciplinares, dotem as escolas das condições necessárias, respeitem os professores das artes e integrem-nos na carreira docente (a Petição Nº 598/XIII/4ª, em análise na Assembleia da República, constitui uma oportunidade para resolver o assunto). Quando isto estiver feito, estarão – aí, sim – lançadas as bases para um Plano Nacional das Artes.

09/01/19

Teremos Sempre Tebas - TAE


Quase 4 anos depois de ter sido levado à cena na Cossoul, o meu texto Teremos Sempre Tebas voltou ao palco, desta vez pelo Teatro Amador de Estremoz.

O espectáculo estreou no dia 5 de Janeiro às 21:30, no Teatro Bernardim Ribeiro, e conta com mais 3 apresentações: 13/01 (Domingo) às 17:00, 19/01 (Sábado) às 21:30 e 20/01 (Domingo) às 17:00.

Sinopse escrita pelo encenador Cláudio Henriques: 
Teremos sempre amor? Teremos sempre corrupção?
Teremos sempre conformismo? Teremos sempre injustiça?
Teremos sempre amizade? Teremos sempre mentira? Teremos sempre fé?
Existirá sempre o ridículo? 
Será que há momentos na história, em que algo profundo muda na essência do Homem?
Será que não muda rigorosamente nada?

“Teremos sempre Tebas” é uma comédia ácida, irónica, onde o texto nos remete a momentos da história de Édipo, mas desvirtuada, desconcertante, leva-nos a um Édipo que poderia viver nos dias de hoje, que pertence aos dias de hoje!

- E nós?
- Teremos sempre Tebas.

O T.A.E. convida-o a vir rir, na viagem, que é este espectáculo!

Ficha Técnica:
Texto Firmino Bernardo, Encenação Cláudio Henriques, Desenho de luz Pedro Soeiro,  Sonoplastia João  Costa, Interpretação Ana Buinho, Cristina Matos, Filipa Fonseca, João Gonçalo Fonseca, Joaquim Carola, Rosário Pena, Rui Pimentel, Rui Serrano, Sinai Fonseca, Susana Guerreiro, Teresa Rebocho, Yacha Fonseca e Zé Picciochi Fortio.

Mais notícias aqui, aqui e aqui.

13/12/18

Dura Tchekhov Lex Sed Tchekhov Lex ou A Última Criação


Dura Tchekhov Lex ou A Última Criação de Firmino Bernardo 
Os Solitários Não Dizem Adeus de Paulo Freitas
 Edição: LdE
Ano de publicação: 2018
 Número de páginas: 72 
Preço: 3,90 € 
Envio: 1,15  

O 1º livro da Colecção Nova Dramaturgia Portuguesa, editada pela companhia de teatro Lendias d' Encantar, a par da revista Escenarios, é composto pelos textos vencedores das duas primeiras edições do Prémio Novas Dramaturgias FITA/LdE: Dura Tchekhov Lex ou A Última Criação de Firmino Bernardo (2015) e Os Solitários Não Dizem Adeus de Paulo Freitas (2018).

Pontos de venda: Poetria (Porto), Casa da Esquina (Coimbra), A Pracinha - Mercearia, Cafetaria e Livraria (Beja), instalações do UMCOLETIVO (Elvas), instalações da Flor de Medronho (Olhão),  Loja do Teatro Nacional São João (Porto), Livraria do Teatro Nacional D. Maria II (Lisboa).

03/12/18

«Vinte anos, cinco meses e dez dias»



Artigo sobre a importância do Grupo de Recrutamento de Teatro, com o título «Vinte anos, cinco meses e dez dias», publicado no jornal Público a 26 de Julho de 2018.

31/07/18

"Deniç i l Paije"



Texto escrito em mirandês, a partir de um conto popular, publicado na Fuolha Mirandesa do Jornal Nordeste em 10 de Julho de 2018.

23/05/18

Lançamento de "A Morte do Artista", vol. 2



O Colectivo A Morte do Artista (Carina Bernardo, Fernanda Cunha, Firmino Bernardo, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern e Paulo Romão Brás) convida-vos para o lançamento do segundo número da revista homónima, que terá lugar no próximo sábado 26 de Maio de 2018, pelas 16:30, na Biblioteca do Palácio de Galveias (Campo Pequeno, Lisboa).

A sessão inclui uma leitura encenada de excertos da revista, a entrega de um prémio a Gonçalo M. Tavares. E talvez croquetes.

O Outro é o tema do segundo volume de A Morte do Artista. E este outro podem ser tantos quantos todos aqueles que povoam o universo de Gonçalo M. Tavares, os seus senhores e mundos – temos dele um texto inédito. O outro é aquele que vem de fora, o que fala outras línguas, como os nossos ‘artistas convidados’ que escrevem em mirandês, galego e catalão. O outro é esta imponderada amálgama de géneros, que passa por crónica, ensaio, conto, poesia e teatro. O outro...

Textos inéditos de Gonçalo M. Tavares, Fernanda Cunha, Firmino Bernardo, João Eduardo Ferreira, Manuel Halpern, Aldina M Duarte, António Silva, Faustino Antão, Gonçalo Marcelo, Joan Casas, Nuno Filipe Oliveira, Pedro Vieira e Yolanda Castaño. Ilustrações de Rui Vitorino Santos. Grafismo de Paulo Romão Brás. Edição e revisão de Carina Bernardo.

09/05/18

Excerto de «Requests ou Permissão para Respirar»


BARTOLOMEU   Não devias guardá-lo aí. Deves tê-lo sempre à mão.

ALBERTINA   A minha mala é muito prática, encontro sempre tudo.

BARTOLOMEU   Eu guardo sempre o meu no bolso de fora do casaco. (tira o cartão do bolso) Estás a ver? Pensa nisto como num slogan   o cartão… está sempre à mão!

ALBERTINA   Guardá-lo na mala também não é mau. Demorei dez segundos a encontrá-lo.

BARTOLOMEU   E eu demorei dois! Se demorares menos oito segundos a cumprir uma tarefa, és mais produtiva. E a produtividade é um dos aspectos mais valorizados nesta empresa! Percebeste?

ALBERTINA   Percebi, chefe.

BARTOLOMEU   Ouve   eu sou um chefe moderno, não tenho nada a ver com aqueles chefes que se armam em ditadores e impõem as suas ideias, mas quando te dou um conselho, é para cumprires. Porque é para teu bem. Percebes isso, Gabriela?

ALBERTINA   Albertina. O meu nome é Albertina.

BARTOLOMEU   Estás no escritório que era da Gabriela e estás à experiência. Quando a empresa decidir que podes ficar, tens direito a ser tratada pelo nome. É que, por incrível que pareça, há pessoas que não se adaptam aos nossos métodos de trabalho.

ALBERTINA   Como sabe, eu possuo uma enorme capacidade de adaptação…

BARTOLOMEU   E quando não temos a certeza que as pessoas vão ficar, não podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar tempo a decorar o nome delas. Entendes, Gabriela?

ALBERTINA   Albertina… quero dizer… entendo, claro que entendo. Perfeitamente.

BARTOLOMEU   Óptimo. E agora chega de conversa. Passa o cartão por esta ranhura para abrires a porta.

ALBERTINA   Não abriu.

BARTOLOMEU   Claro que não abriu. Sabes porquê?

ALBERTINA   Se calhar passei-o ao contrário.

BARTOLOMEU   Não, passaste-o bem. O sistema reconheceu que tentaste abrir a porta, mas não te deixa sair, porque não estás cá dentro.

ALBERTINA   Não estou cá dentro?

BARTOLOMEU   Claro que não estás cá dentro. Não percebes porquê?

23/04/18

Chiado

Às vezes pergunto-me: se a Chiado Editora existisse no tempo do Fernando Pessoa e ele quisesse publicar lá uns versos, quanto teria de pagar por cada heterónimo?

24/09/17

Lear


Se Rei Lear fosse um texto do século XXI, a Cordélia seria deserdada por não pôr likes ao pai.