10/01/14

A Cigarra, a Formiga (revisitação)


A formiga passava os dias a trabalhar.
A cigarra passava os dias a cantar.
Dias frios.
A cigarra toca à campainha da formiga.
- Vizinha, não há comida na minha casa.
- Trabalhavas para a ganhar?
- Cantava para animar os dias.
A formiga tranca a porta.
Passam vários dias.
A formiga toca à campainha da cigarra.
- Vizinha, não há cantigas na minha casa.
- Não cantas para animar os dias?
O acordo final?
A cigarra vai a casa da formiga.
A formiga dá comida, a cigarra dá cantigas.

(Publicado também aqui)

27/12/13

Carta de uma mãe preocupada



Indiegente é um programa da autoria de Nuno Calado, sobre rock independente e alternativo, que passa na Antena 3 (segunda à sexta entre as 00:00 e a 1:00) e na Antena 3 Rock (segunda à sexta entre as 20:00 e as 21:00).

Contos para Pulares é uma rubrica deste programa que apresenta semanalmente uma "ficção pop". Os contos são da autoria de Manuel Halpern e são lidos por mim próprio.  

Aqui fica a emissão do Indiegente do dia 19 de Dezembro onde, por volta dos 25 minutos, é possível ouvir o conto de Natal carta de uma Mãe Preocupada.

23/11/13

caderno Fantasma Útil



Na próxima quinta-feira 28 de Novembro, às 18 horas, será lançado, na  livraria Pó dos Livros (Avenida Marquês de Tomar, 89, Lisboa), o livro caderno Fantasma Útil de Fernanda Cunha, João Eduardo Ferreira e Pedro Castro Henriques, editado pela Apenas Livros.

Venham descobrir o que têm em comum obras como Crime e Castigo de Fiódor Dostoievski, O Mundo de Ontem de Stefan Zweig, Apuros de um Pessimista em Fuga de Mário de Carvalho e A Máquina de Fazer Espanhóis de Valter Hugo Mãe. Venham descobrir como a política e a literatura se interligam e de que forma a leitura e a escrita podem ser actos políticos.

O evento contará com uma conversa entre os autores do "caderno", a editora Fernanda Frazão e os escritores Mário de Carvalho e Rui Cardoso Martins. Lerei de seguida alguns excertos e terminaremos com um "convívio" entre todos os que comparecerem.

Não haverá transmissões em directo pelo Facebook, embora não se desdenhe a publicação de fotos a posteriori. caderno Fantasma Útil não estará à venda no Pingo Doce nem terá descontos de 50%; ainda assim, este livro, constituído por um ensaio e duas ficções, poderá ser adquirido a um preço bem simpático.

03/11/13

O Guião de Paulo Portas




Quando soube que o governo ia escrever um guião e tal tarefa estava a cargo de Paulo Portas, achei a escolha acertada. Paulo Portas é um cinéfilo com provas dadas, tem experiência a inventar intrigas, domina tão bem a língua portuguesa que até consegue mudar o significado de palavras como "irrevogável" ou "dissimulação" e adapta-se facilmente a funções tão distintas como negociar submarinos ou tirar fotocópias.

Claro que houve atrasos e adiamentos na conclusão desta tarefa, o que provocou alguns protestos por parte de pessoas que não têm noção das dificuldades do guionismo (Robert McKee, professor reputado da arte de escrever histórias, chegou mesmo a afirmar que um guião é mais difícil de escrever do que um romance). Mas Paulo Portas, qual Barton Fink do Palácio das Laranjeiras, lá conseguiu vencer os medos e apresentar o guião ao país.

As críticas não se fizeram esperar. Primeiro de tudo, o guião tem mais de 120 páginas e foi escrito a dois espaços e tamanho 16. Ora, qualquer principiante na arte de escrever guiões sabe que se deve utilizar a fonte Courier, tamanho 12, a espaçamento simples. Além disso, não há estúdio que pegue num guião com mais de 100 páginas e alguns até torcem o nariz aos que ultrapassam as 90. Este problema podia ter sido facilmente ultrapassado se, ao invés de escrever em Word, Paulo Portas tivesse usado o CeltX, que é gratuito e trata logo da formatação sem que o guionista se preocupe com isso.

Mas o conteúdo também apresenta problemas graves: há sequências que se repetem, cenas demasiado longas, diálogos redundantes, o enredo é pobre e inverosímil, a estrutura tem falhas, as ideias são superficiais ou plagiadas e não se percebe bem para onde vão os protagonistas. A bem dizer, só se percebe que a história vai acabar mal e que há mais bandidos do que em toda a saga do Padrinho.

Consta que Alfred Hitchcock dizia que a qualidade do filme se mede pela qualidade do vilão. Neste caso, os vilões são planos, grotescos, ridículos e não fascinam ninguém, mas desconfio que não os esqueceremos tão cedo. É pouco provável que nos matem no duche como o Norman Bates, mas é bem possível que privatizem a água e nos apresentem uma conta astronómica quando sairmos da banheira.

No fundo, em vez de nos ter dado um guião tecnocrata e um discurso aborrecido, Paulo Portas podia ter apresentado um pitch: um bando de indivíduos sem escrúpulos junta-se com a intenção de desmantelar o Estado e distribuir tudo pelos amigos, em troca de um futuro cargo numa parceria público-privada. Conseguirão os lusitanos compreender este plano e agir a tempo de o impedirem?

02/10/13

Vanitas


Ter um ego do tamanho do mundo pode sair caro. Não faltam por aí editoras oportunistas a pedir a escritores desconhecidos que lhes paguem uma boa maquia por uma edição cheia de erros ortográficos e com uma capa sofrível. Agora até há encontros / festivais em que os escritores desembolsam para irem lá divulgar as suas obras. 

Espanta-me que ainda ninguém se tenha lembrado de criar empresas que produzam curtas de jovens guionistas (pagas a preço de ouro) ou peças de teatro de jovens dramaturgos. Como, além disso, consta que todas as artes podem ser fontes inesgotáveis de prazer, podiam abrir galerias que cobrassem a pintores e a escultores pelas exposições, produtoras que cobrassem aos actores e aos realizadores pela oportunidade de criar e restaurantes que cobrassem pela oportunidade de cozinhar como um "chef". Já agora, até podiam criar colégios que cobrem pela oportunidade de dar aulas. 

Eu, que também tenho uma veia empreendedora e gosto de dar oportunidades, procuro alguém que venha cá a casa fazer limpezas duas vezes por semana e pague por isso. Se souber umas coisas de canalização, até sou capaz de lhe fazer um desconto.

04/09/13

O Especialista

O especialista em negócios na bolsa
Senta-se frente ao computador
Vê as cotações da tua esperança
Dos teus sonhos, da tua dignidade
E decide qual venderá primeiro.


(Versão mirandesa aqui e aqui)

29/07/13

Excerto de As Grandes Dionísias


Auto Questionário Proust-Neto

Dizem que estamos a entrar na silly season (como se ela não durasse o ano todo) e que é uma boa altura para responder a questionários de Verão. Como ninguém me pergunta nada, resolvi tomar a iniciativa e fazer-me uma auto-entrevista (género tão respeitável como outro qualquer) inspirada na versão do Questionário Proust inventada pelo Joel Neto. Tomei a liberdade de fazer pequenas alterações, porque quando entrevistamos alguém, a conversa flui e surgem ideias que não estavam no guião. Com a auto-entrevista não é muito diferente.

Porque decidiste tornar-te escritor? Foi só por vaidade?
Para já, só decidi escrever. Um dia talvez consiga tornar-me escritor.

Essa resposta foi muito politicamente correcta. Estás a armar-te em humilde?
Nada disso. É que a palavra «escritor» tem um peso enorme. Não te esqueças que eu só publiquei duas peças de teatro em livro e meia dúzia de textos dispersos. Se tiver mesmo de usar uma palavra para me definir enquanto ser escrevente, prefiro o anglicismo writer, que serve para qualquer pessoa que escreva não importa o quê

Como queiras. O que te levou então a querer escrever? Foi a vaidade?
Se eu quisesse armar-me em vaidoso, comprava um carro que desse nas vistas e passava o resto da vida a tentar pagá-lo. Se me perguntas o que me levou a querer escrever, confesso-te que não sei. Mas não me parece que seja a vaidade.

Continuando, então: qual foi a melhor frase que já escreveste?
Temo não ser a melhor pessoa para responder a isso.

Mau! Mas vais passar o resto da entrevista a desconversar?
 Eu avisei-te que isto não ia ser fácil.

Qual é a frase que mais lamentas não teres sido tu a escrever?
Entre as muitas escolhas possíveis, opto por um verso do Zeca Afonso: «Quando o pão que comes sabe a merda, o que faz falta?» É a prova de que não é preciso recorrer a palavras "bonitas" para escrever versos expressivos. Além disso, é uma frase bastante actual.

Quantas vezes, ao longo das últimas revisões de um texto, és assaltado pelo medo de morrer sem que o mundo possa usufruir da tua obra?
Tenho mais medo de morrer quando atravesso uma passadeira do que quando revejo um texto. Quando revejo um texto, tenho mais medo de deixar passar gralhas do que de morrer.

Já conseguiste perdoar-te pela publicação do primeiro livro?
Gosto do primeiro livro que publiquei e tenho a sorte de não ter conseguido publicar o primeiro que escrevi. Aliás, quero destrui-lo antes de morrer, não vá alguém achar que o mundo deve “usufruir” de tal obra.

Achas que vais arrepender-te também de publicar o próximo?
Rejo-me pelo princípio de nunca publicar nada que possa vir a envergonhar-me no futuro. Claro que posso estar enganado…

Que livro gostarias mesmo de escrever e sabes que não serás capaz?
Um best seller aclamado unanimemente pelos leitores e pela crítica.

Achas que as tuas melhores ideias se perderam por não teres podido anotá-las?
Eu anotei as melhores ideias, só não sei onde é que guardei as notas.

Que temas são absolutamente impossíveis de plasmar em literatura verdadeira?
Não sei o que é isso de literatura verdadeira.

Estamos outra vez a desconversar? Que temas são impossíveis de utilizar num livro?
Nenhum?

Que palavra tentas nunca usar num texto?
Tento não usar expressões batidas como “branca e fria como a neve” ou “escuro como breu”. Nos diálogos, tento que as personagens não digam palavras que desconhecem ou não estejam de acordo com as suas características. Mas, em princípio, não há palavras proibidas. E quando escrevo comédia, até posso ignorar as regras que acabei de enunciar, desde que consiga efeitos cómicos com isso.

Que palavra usarias para rimar com «amor»?
Tenho cara de dicionário de rimas?

Pronto! E que palavra nunca usarias para rimar com «amor»?
Empreendedor.

Quantas vezes, ao longo da tua juventude, disseste que Jane Austen era «uma merda»?
Nenhuma. Mas devo ter dito isso sobre o Pessoa ou o Eça, o que é só perdoável porque a adolescência é a fase ideal para dizer parvoíces.

Quantas vezes já mandaste a Jane Austen à merda por não conseguires escrever como ela?
Nunca me ocorreu escrever como a Jane Austen.

Como reages quando uma pessoa se zanga contigo por a teres usado como personagem?
Se tiver mesmo de usar pessoas reais para criar personagens, escolho pessoas que não gostem de ler os meus textos. Se algum dia for apanhado, farei como fez o Eça quando o acusaram de se inspirar em Bulhão Pato para criar o Tomás de Alencar: rogarei ao visado «o obséquio extremo de se retirar de dentro do meu  personagem».

Que livro mais gostarias de destruir? Por favor, não respondas Mein Kampf.
Sou pouco dado a destruir livros.

Qual a melhor primeira frase de um romance que tenhas lido?
«Chamem-me Ismael» Sim, eu sei que é um cliché, mas é a verdade, que queres que te diga?

E a última?
«E foram tomar xerez à Taverna Inglesa».

Os Lusíadas ou a Mensagem?
Os Lusíadas.

O Codex 632 ou Não Há Coincidências?
Não li nem tenciono ler nenhum deles. Mas também não tenciono destrui-los.

Um manuscrito desconhecido de Cesário Verde ou uma vitória do teu clube?
Um manuscrito do Cesário.

Quando é que vais ler um livro num iPad?
Quando alguém me oferecer um ou quando os preços descerem substancialmente.

Se soubesses que este inquérito era tão parvo (e tinha tantos palavrões), terias acedido a responder-lhe?
O pior é que eu conhecia o inquérito e acedi a responder-lhe sem ninguém me pedir.

Não estás já um bocadinho cansado da técnica da auto depreciação?
Estou muito cansado da auto depreciação, até porque nem isso faço bem.

Agora a sério: em que página desististe da Recherche?
Como ainda não comecei, tecnicamente ainda não desisti.

05/07/13

João Eduardo Ferreira escreve sobre «As Grandes Dionísias»

No princípio era o verbo. Se o evangelista João tem razão, essa razão vem da palavra dita, ouvida, dialogada. Pois antes, muito antes de Cristo e da palavra como dogma, está a palavra como ritual, como máscara, como interpretação. A palavra e o teatro nascem com a humanidade. Fazer teatro não é mentir, é compreender, é integrar. Luigi Pirandello, Peter Handke, Manuel Halpern escreveram teatro sobre teatro, a palavra sobre a palavra. Também Firmino Bernardo e Suzana Branco rescrevem a tragédia «As Bacantes» de Eurípides, estreada em 406 a.C., para entender um grupo de teatro amador em conflito com um encenador de haute culture: «Nunca tentaste compreender-nos», «E vocês, já tentaram compreender o que significa fazer teatro?». «Esqueçam-se de vocês e lembrem-se do espectáculo», põe ordem, finalmente, o Taberneiro, investido como actor, encenador, coro e «deus ex machina». A voz que, com humor e razão, vem salvar a cabeça de Penteu, a cegueira de Agave, as sete portas de Tebas, o futuro da palavra, a realidade do disfarce, a alegria do público. No princípio é, na verdade, o Teatro. E o teatro lido tem um sabor muito especial.
jef, julho 2013