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04/11/20

Fartos de Esperar Godot



No âmbito do Orçamento do Estado para 2021, o Governo anunciou o “Lançamento de um programa de modernização do ensino profissional, incluindo o seu reequipamento e a criação de novas vias de ensino e formação especializada nos setores tecnológico, digital, industrial e agrícola”. Perante tal anúncio, pergunto: como serão contratados os professores nos cursos profissionais “modernos”?

Os contratos temporários são, há décadas, regra na contratação dos professores de técnicas especiais (áreas técnicas e/ou artísticas não abrangidas por grupos de recrutamento) e a situação agravou-se quando, no mandato de Maria de Lurdes Rodrigues, o Ministério da Educação nos mudou o nome para “técnicos especializados”, como se não desempenhássemos funções docentes.

Nós preparamos aulas, damos aulas, apoiamos alunos, avaliamos, participamos em reuniões, trabalhamos em equipa com outros docentes, vigiamos exames, por vezes até somos directores de turma ou de curso, acompanhamos Provas de Aptidão Profissional e Formação em Contexto de Trabalho, somos avaliados como os outros docentes (até estamos sujeitos a quotas), a nossa remuneração é calculada com base na carreira docente (só que o índice 151 é o máximo a que podemos almejar), mas não fomos abrangidos pelas vinculações extraordinárias de professores nem pela chamada norma-travão. Restou-nos a possibilidade de nos candidatarmos ao PREVPAP, em 2017.

As respostas foram chegando (não para todos) em Outubro ou Novembro de 2019 e, na maioria dos casos, confirmava que as nossas funções correspondem a necessidades permanentes e que o vínculo contratual era inadequado, pelo que teria de haver concurso para o regularizar.

Em Janeiro de 2020, uma notícia do Público referia que os “Formadores dos cursos profissionais vão ter concurso próprio para entrar na carreira”, ao abrigo do PREVPAP . Estamos quase em Novembro, não se sabe absolutamente nada sobre o “concurso próprio” e, sobre o PREVPAP, apenas se sabe que o Governo identificou o culpado dos atrasos: o SARS-CoV-2.

Por aqui se vê que há muitas formas de reagir a pandemias. Os professores, por exemplo, adaptaram-se a novas formas de ensino. O Governo arranjou um bode expiatório para os atrasos do PREVPAP.

Meus senhores, estamos fartos de esperar Godot.  Ponham os olhos na vinculação extraordinária do Ensino Artístico de 2018, façam os ajustes necessários para cumprirem a vinculação dos “técnicos especializados para formação” que se candidataram ao PREVPAP e criem mecanismos para resolver a situação precária daqueles que não puderam candidatar-se a este programa. 

Já agora, cumpram a Resolução da Assembleia da República n.º 37/2018, que «Recomenda ao Governo que valorize e dignifique os técnicos especializados das escolas públicas, promovendo a sua contratação efetiva e combatendo a respetiva precariedade».

Uma das razões frequentemente apontadas para a falta de professores é o baixo salário inicial. Mas poucos dizem que, em muitos casos, o “início” tem tendência a prolongar-se durante anos, para não dizer décadas. Acabe com este estado de coisas, senhor Primeiro-Ministro. E aí, sim, poderá falar, com propriedade, em modernização!

12/07/19

Plano Nacional das Artes Simplex

"Público", 2.07.19

Tenho visto muitos defensores da Educação Artística festejar o Plano Nacional das Artes apresentado recentemente pelos ministérios da Educação e da Cultura. Perdoem-me o cepticismo, mas antes de abrir o champanhe, devíamos (re)ler este excerto do Decreto-Lei n.º 344/90, que estipula as Bases Gerais da Educação Artística: «a sua resolução passa pela reestruturação global e completa de todo o sistema, iniciando-se por aí a construção gradual de um novo sistema articulado, que contemplará todas as modalidades consideradas neste domínio, a saber: música, dança, teatro, cinema, audiovisual e artes plásticas».

Quase trinta anos depois deste DL está praticamente tudo por fazer. No 1º ciclo a Educação Artística tem 4 áreas obrigatórias (Artes Visuais, Expressão Dramática/Teatro, Dança e Música), no 2º ciclo tem apenas duas (Educação Visual e Educação Musical) e, no 3º ciclo, apenas uma (Educação Visual).

No 2º ciclo e no 3º as escolas podem criar outras disciplinas artísticas, mas “privilegiando os recursos humanos disponíveis”. Tal limitação, em áreas como Teatro ou Dança, que não têm grupo de recrutamento nem professores no quadro, leva uma boa parte das escolas a não abrir estas disciplinas e outras a atribuir os horários a “curiosos” sem formação, apesar de, só em Teatro, existirem 21 licenciaturas.

No Ensino Secundário foi recentemente criada a opção de Teatro, mas limitada ao 12º ano (a extinta Oficina de Expressão Dramática existia nos 3 anos), sem que saibamos em que moldes funcionará. Também há disciplinas ligadas a esta área em cursos profissionais e em cursos do Ensino Artístico Especializado.

Curiosa e ironicamente, em matéria de Teatro na Escola, o Ministério da Educação pinta um cenário pior do que a realidade. Leia-se o Ofício n.º 595/2019, assinado pela chefe de gabinete do Ministro da Educação, que diz ter havido, em 2018/19, apenas 8 pedidos de horários para “a disciplina” de Teatro. Tal afirmação, mais absurda que o teatro de Ionesco, apenas confirma o desconhecimento da realidade por parte de quem vive em gabinetes.

Não há assim tão poucos professores de Teatro nas escolas. Devia haver mais, mas não há assim tão poucos. A tutela é que não lhes reconhece a existência nem a formação, não sabe que disciplinas leccionam nem que trabalhos desenvolvem, não os integra na carreira docente e nada fez para combater o recurso abusivo à contratação anual sucessiva.

Se quisesse mesmo um Plano Nacional das Artes, o Ministério da Educação teria convidado os professores das áreas artísticas a apresentar sugestões. Mas não o fez. O único contacto feito à Associação de Professores de Teatro-Educação foi um convite para assistir à apresentação do PNA, através de um e-mail enviado na véspera, com a data errada (talvez faça falta um PNEE – Plano Nacional para Enviar E-mails). Mas ainda bem que não estivemos presentes no evento, pois falta-nos paciência para apresentações de “novidades” que já existem.

Sim, já existem visitas de estudo a museus e teatros. Sim, há muito que as escolas acolhem artistas. Até há, imagine-se, artistas que dão aulas de artes. E também existe formação superior nas várias artes, que o Ministério da Educação deveria respeitar e que nenhuma Academia PNA poderá substituir.

Querem um Plano Nacional das Artes? Fomentem a existência de diferentes expressões artísticas nas escolas, dêem-lhes a mesma importância que têm as outras áreas disciplinares, dotem as escolas das condições necessárias, respeitem os professores das artes e integrem-nos na carreira docente (a Petição Nº 598/XIII/4ª, em análise na Assembleia da República, constitui uma oportunidade para resolver o assunto). Quando isto estiver feito, estarão – aí, sim – lançadas as bases para um Plano Nacional das Artes.

03/12/18

«Vinte anos, cinco meses e dez dias»



Artigo sobre a importância do Grupo de Recrutamento de Teatro, com o título «Vinte anos, cinco meses e dez dias», publicado no jornal Público a 26 de Julho de 2018.

09/10/16

Dramática Expressão


Artigo publicado no JL Educação número 1199 - de 14 a 27 de Setembro de 2016.

04/06/16

Teatro e Expressão Dramática no Sistema de Ensino


Aqui fica, para memória futura, o artigo que publiquei no Jornal de Letras (30 de Março a 12 de Abril de 2016) e na Visão online.