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10/01/14

Thriller La Fontaine


Talvez só ela soubesse do sucedido.
Era fulcral que só ela soubesse.
Se a descobrissem, estaria tramada.
E se alguém a tivesse visto?
“Sei o que fizeste”, diriam.
“O que fizeste no Inverno passado”.
Mas quem poderia julgá-la?
Aquela cigarra nunca se calava!
No Verão só cantava, nada de trabalhar.
No Inverno só mendigava, nada de cantar.
Era sempre assim!
Já farta, convidou-a para jantar.
Serviu-lhe pão com cogumelos.
Deixou-a estrebuchar.
Enterrou-a no quintal.

(Publicado também aqui e aqui)

A Cigarra, a Formiga (revisitação)


A formiga passava os dias a trabalhar.
A cigarra passava os dias a cantar.
Dias frios.
A cigarra toca à campainha da formiga.
- Vizinha, não há comida na minha casa.
- Trabalhavas para a ganhar?
- Cantava para animar os dias.
A formiga tranca a porta.
Passam vários dias.
A formiga toca à campainha da cigarra.
- Vizinha, não há cantigas na minha casa.
- Não cantas para animar os dias?
O acordo final?
A cigarra vai a casa da formiga.
A formiga dá comida, a cigarra dá cantigas.

(Publicado também aqui)

20/11/11

O Pesadelo (Micro Conto)

Deixem-me contar-vos o pesadelo que tive uma noite destas. Eu estava na rua, com milhares de pessoas, numa manifestação contra a política do governo. Estava a queixar-me do ministro das Finanças, quando toda gente parou. À minha volta, todos estavam calados e pareciam ter vergonha. À minha frente, só consegui ver as costas de um homem que usava um blazer azul (há muita gente a dizer que sonhamos a preto e branco, mas eu sonho a cores na mesma).

O homem voltou-se devagar: era o ministro das Finanças. Os olhos pareciam bocados de vidro, a cara não tinha expressão, ele olhava-me fixamente. À minha volta, toda a gente tinha desaparecido. Corri quanto pude e entrei num prédio com muitas escadas. Corri tanto pelas escadas acima, que se não fosse um sonho, tinha perdido mais de dez quilos.

Quando cheguei lá acima, só encontrei uma parede branca. Não havia nenhuma forma de fugir ou de me esconder. O ministro estava a chegar, lento mas seguro, com uma faca de metal na mão direita. Pelo menos, não discursou.

Eu sei que isto vai parecer-vos um deus ex machina, mas a verdade é que acordei nesse preciso momento. A manhã ainda era uma criança, a casa estava calada. Olhei para o despertador: eram quase horas de me levantar. Liguei o rádio para ouvir um bocadinho de música, mas em vez disso, ouvi as notícias - foi aí que percebi que continuo a ser perseguido pelo ministro das Finanças.