19/10/11

Sabe mais que um miúdo de dez anos?


Quando eu andava na Escola Primária, tínhamos muitas maneiras de nos divertirmos, talvez mais do que hoje. Jogávamos à bola, ao peão, ao berlinde, à apanhada, às escondidas, ao mata, subíamos às árvores e, quando não nos apetecia fazer nada disso, andávamos à pancada. Não era uma brincadeira muito civilizada, mas tinha as suas regras.

Por exemplo, não se podia travar uma luta desigual em número. Quando muito, um grupo podia ter uma «claque» maior que o outro. Também não podíamos bater num rapaz mais pequeno e mais fraco, a não ser que ele tivesse começado a luta e, ainda assim, tínhamos que bater com cuidado e deixá-lo dar um murro ou dois. Se um «grande» se metia com um «pequeno», era desprezado e insultado por todos, com expressões como «cobarde» e «mete-te com os do teu tamanho».

Lembro-me disto quase diariamente quando leio os artigos de opinião dos jornais e vejo a maneira como os colunistas tratam os políticos. Quando um político diz que é preciso ajudar quem mais precisa e aumentar os impostos sobre os lucros da banca e as grandes fortunas, já sabe que lhe vão chamar demagogo e irrealista. Mas se um político falar em despedir funcionários públicos, baixar salários, cortar direitos sociais, aumentar impostos (à classe média ou às classes mais baixas), congelar carreiras, aumentar taxas moderadoras ou fechar escolas, os colunistas utilizam palavras como “coragem” e “determinação”. Quando se bate nos mais pequenos, há coragem. Quando se bate nos maiores, há demagogia.

No tempo em que eu andava à pancada, subia às árvores e jogava ao berlinde, cheguei a pensar que só escreviam nos jornais as pessoas mais sábias. Hoje, a cada dia que passa, torna-se cada vez mais claro que a maioria não sabe mais que um miúdo de dez anos.

12/02/11

«À Custa dos Cidadãos»



Quando começou a guerra de Tróia, todos os reis gregos foram chamados a combater. Forçado a separar-se da consorte Penélope e do bebé Telémaco, Ulisses só desejava voltar rapidamente para casa. Infelizmente, a guerra durou dez anos e o regresso dele teve tantos obstáculos, que durou outros dez.

Quando se soube que a guerra tinha terminado e que, entre os sobreviventes, só Ulisses não tornara ainda a casa, houve quem acreditasse que ele morrera a tentar regressar. O palácio encheu-se rapidamente de pretendentes à mão de Penélope que, fiel a Ulisses, foi sempre adiando a resposta. Insatisfeitos com a situação, os pretendentes ocuparam o palácio onde passaram a fazer festins diários e disseram que só iriam embora quando um deles fosse escolhido para casar com Penélope e governar Ítaca.

Ao contrário do que esperavam, Ulisses regressou, infiltrou-se entre eles, disfarçado de mendigo, e só se revelou quando estava armado com um arco e flechas e tinha acesso a lanças e escudos. Embora ainda tivessem espadas e fossem superiores em número, os pretendentes tiveram medo. Morto Antínoo, o mais arrogante de todos, Eurímaco tentou apelar ao perdão: «reparar-te-emos, à custa dos cidadãos, de tudo o que se comeu e bebeu nesta casa» (Homero, A Odisseia, Edições Europa-América).

Estas palavras bastam-nos para vermos o carácter desta gente. Passaram anos a comer bens que não eram deles e quando chegou a hora de responderem por isso, propõem-se restituir tudo "à custa dos cidadãos". Que respondeu Ulisses a isto? Como é óbvio, matou-os todos, com a ajuda de Telémaco, Eumeu e Filétio.

Claro que Ulisses tinha outras razões para matar os pretendentes: quiseram casar com a mulher dele, quiseram roubar-lhe o poder, tentaram matar-lhe o filho numa emboscada, insultaram-no na própria casa (quando o julgavam um mendigo), tê-lo-iam assassinado se pudessem... Mas, mesmo assim, devíamos reflectir neste episódio.

É que ainda há por aí muita gente a viver à grande e a pagar as dívidas à custa dos cidadãos. Veja-se o que aconteceu quando faliram bancos. Quem pagou os prejuízos? Nós. Vejam-se os grandes negócios por ajuste directo entre o Estado e os amigos dos políticos, as reformas obscenas de quem trabalhou meia dúzia de anos na política, o dinheiro gasto em estudos feitos para a gaveta, o investimento desproporcionado em submarinos que nem sequer estão em boas condições, o dinheiro que recebem do Estado todos os hipócritas que vão à televisão dizer que temos "Estado a mais". Quem paga isto tudo? Nós, claro. E, se o que pagamos não chega, não há problema. Passamos a pagar mais.

Sou contra a pena de morte e não acredito na violência. Contudo, às vezes interrogo-me sobre como seria o mundo se, de cada vez que alguém diz "pagamos a dívida à custa dos cidadãos", aparecesse um Ulisses munido de arco e flechas e lhe desse o tratamento adequado. Desconfio que seria um mundo bem melhor.

16/01/11

Baco a Presidente



«
CORO

Eis-nos em Tebas,
Cidade fundada pelo antigo rei Cadmo,
Pai de Ino, Agave, Antónoe
E da bela Sémele, que despertou a paixão de Zeus,
Deus dos deuses e das trovoadas.

Apesar de casado com Hera,
Deusa ciumenta e vingativa,
Zeus cortejou Sémele,
Seduziu-a e engravidou-a.

(...)

Para se vingar,
Hera fez Sémele duvidar de Zeus
E convenceu-a a pedir-lhe que se mostrasse na sua verdadeira forma.

Dias mais tarde,
Quando se encontraram,
Sémele obrigou Zeus a jurar que cumpria um pedido seu,
Fosse qual fosse.

Longe de suspeitar do ardil de Hera,
Zeus jurou cumprir a vontade de Sémele
E ela pediu-lhe que se mostrasse tal como é.

(...)

Pesaroso por conhecer as consequências de tal pedido,
Zeus cumpriu a promessa:
Transformou-se num trovão
E fulminou a pobre Sémele,
Que morreu imediatamente.

Mas a criança sobreviveu
E Zeus colocou-o na própria coxa
Para aí terminar a gestação.

É por isso que ele se chama Ditirambo,
Aquele que nasceu duas vezes.

Também é conhecido por Brómio, Diónisos ou Baco.»

Excerto de As Grandes Dionísias, peça livremente inspirada no mito de Baco e n' As Bacantes de Eurípides


E pronto, está resolvido o Mistério! De quem estava a falar o senhor presidente da República quando disse que temos de nascer duas vezes para sermos mais honestos que ele? Do deus Ditirambo, Brómio, Diónisos, Dioniso ou Baco, que infelizmente não é candidato ao cargo.

Eu votaria nele, apesar de ter estado contra os lusitanos no Concílio dos Deuses e dos estratagemas que arranjou para tramar a vida ao Vasco da Gama. Esse comportamento tem, a meu ver, duas atenuantes.

Primeiro, Baco temia que a glória do povo português pudesse ofuscar os feitos dele. Ora, nas circunstâncias actuais, a glória do povo português não ofusca ninguém.

Segundo, esses estratagemas foram todos inventadas por Camões. Estou convencido que se Luís Vaz conhecesse os actos cometidos por certo adorador do deus bolo-rei e dos deuses mercados contra o povo lusitano, dez cantos não lhe chegariam para Os Lusíadas. Se, além disso, Camões soubesse que parte do povo português pretende continuar a votar nessa figura, desistiria logo da epopeia.

Com Baco presidente, seriam vetados quaisquer atentados à agricultura (pão e vinho era o lema dos povos antigos), às festas e ao Teatro. Com Baco presidente, os especuladores que andam a ganhar dinheiro com os juros da dívida pública teriam uma sorte bem pior que a de Penteu (assassinado pelas Bacantes, entre as quais estava a própria mãe). Com Baco presidente, talvez o povo voltasse a ter razões para festejar.

Infelizmente, os políticos (e o povo) continuam a adorar os falsos deuses Mercados. E é nisto que reside a Origem da Tragédia.

23/07/10

As Grandes Dionísias, 30 de Julho, Espaço Nimas



No próximo dia 30 de Julho, sexta-feira, às 21:30, poderão ver ou rever «As Grandes Dionisias» (peça que escrevi em parceria com Suzana Branco, levada à cena pelos Smupalenses) nos antigos cinemas Nimas, Avenida 5 de Outubro, 42 B, Lisboa, pertíssimo da estação de Metro Saldanha (linhas amarela ou vermelha). Apressem-se a reservar os bilhetes (preço de 5 euros), através do e-mail espaconimas@gmail.com.

Texto: Firmino Bernardo e Suzana Branco (a partir de As Bacantes de Eurípides).
Encenação: Suzana Branco.
Cenografia: Bárbara Pinto.
Interpretação: Alexandra de Matos, Alice Costa, Cristina Guerreiro, Cristóvão Santos, Fátima Calás, Helena Fernandes, João Azevedo, Manuel Jerónimo, Miguel Lourenço, Mónica Saraiva, Sofia Magalhães.

18/06/10

«Memórias de Uma Vida Para Esquecer» pelos Teatrólicos


Teatrólicos é um grupo de alunos da Escola Secundária de Pinhal Novo que se juntaram para fazer teatro, dirigidos pela professora Conceição Rodrigues.

Este ano escolheram a peça «Memórias de Uma Vida Para Esquecer», que representaram no dia 5 de Maio para a Comunidade Escolar, ao abrigo do programa Fantasiarte, e no dia 11 de Junho, na sexta edição do programa Teatrices. Em ambas apresentações, a peça foi um sucesso e arrancou muitas gargalhadas ao público.

Quero agradecer à Conceição Rodrigues e aos alunos que compõem o grupo, não só por terem representado o meu texto, mas principalmente por terem feito um trabalho que nos deixa, a todos, bastante orgulhosos.

28/04/10

As Grandes Dionísias



A companhia de teatro da SMUP, também conhecida por smupalenses, vai levar à cena um texto que escrevi em parceria com a Suzana Branco, encenadora do espectáculo, inspirado na obra de Eurípides.

As Grandes Dionísias conta a história de um grupo de teatro que tenta representar a tragédia As Bacantes de Eurípides, só que as coisas não correm lá muito bem. Primeiro, aparece um taberneiro que tenta boicotar a peça e só desiste quando descobre que vão representar a história do deus do vinho. Depois, descobre-se que a verdadeira tragédia... são os actores. Conseguirá o encenador salvar o espectáculo?

Datas das apresentações:
- sexta 14 de Maio às 21:30;
- sábado 15 de Maio às 21:30;
- sexta 21 de Maio às 21:30 (esgotado);
- domingo 23 de Maio às 16:00;
- sexta 28 de Maio às 21:30;
- sábado 29 de Maio às 21:30;
- quarta 2 de Junho (véspera de feriado) às 21:30;

- Local das apresentações:
- instalações do Murtalense (Largo João dos Santos, 10, Murtal, 2775-102 Parede).

Para chegar, basta seguirem o mapa abaixo, ou procurar instruções no google maps.


Se forem de comboio, podem sair em S. Pedro do Estoril e seguir a pé até ao Murtal (é perto).

O espectáculo dura aproximadamente 70 minutos, não se paga bilhete, mas devem reservar a entrada através do email smupalenses@gmail.com (Miguel Lourenço) ou do telemóvel 966947471.

Se puderem ir, divulguem. Se não puderem ir, divulguem também. Obrigado e até breve.

Texto: Firmino Bernardo e Suzana Branco (a partir de As Bacantes de Eurípides).
Encenação: Suzana Branco
Cenografia: Bárbara Pinto.
Interpretação: Alexandra de Matos, Alice Costa, Cristina Guerreiro, Cristóvão Santos, Fátima Calás, Helena Fernandes, João Azevedo, Manuel Jerónimo, Miguel Lourenço, Mónica Saraiva, Sofia Magalhães.

14/05/09

Novo Lançamento

No dia 23 de Maio, vou estar em Palmela, para o «relançamento» de «Memórias de Vida para Esquecer». O livro será apresentado por Fernanda Frazão, editora da Apenas, e por mim.

O evento inicia-se às 16 horas e 30 minutos no Ginásio de Educação da Vinci, Rua Dr. Bernardo Teixeira Botelho, nº 15 (muito perto do terminal rodoviário; em caso de dúvida, ligue 210 873 347, 932 977 813 ou consulte o google maps).

Cá vos espero. Avisem os vossos amigos, inimigos, colegas e conhecidos.

27/12/08

Memórias de uma vida para Esquecer


Memórias de uma Vida para Esquecer
de 
Firmino Bernardo
Editora: Apenas Livros
Prefácio: Mário de Carvalho
Capa: Telmo Garção Lopes
Revisão: Luís Filipe Coelho
Ano de publicação: 2008
Número de páginas: 44
Preço: 3,63 €
Envio: 1,15 €

«Anda por aqui há algum espírito ladino dos Monty Python, com os seus jogos de linguagem e pensamento, mas também os velhos novelos de equívocos e quiproquos na melhor tradição da Commedia dell Arte, organizados em torno de uma caracterização marcada das personagens»
Mário de Carvalho (no prefácio).

É possível adquirir o livro na livraria do Teatro Nacional D. Maria II, na Letra Livre, na Colibri, através do site da editora ou contactando o autor. Pode ler excertos no Issu ou no Calaméo.